Entrevista Luli Radfahrer
Por: CCW - Lab
CCW - Conte um pouco sobre o Luli. Como você chegou a PhD em comunicação? Sempre quis trabalhar com isto?
Luli - Comecei a pesquisar Internet desde antes que ela se tornasse um sucesso comercial. Na USP, em especial na Escola de Comunicações e Artes, tínhamos acesso àquele “negócio” de Internet que ninguém sabia direito o que era e o que podia ser feito com ele. Ao conhecer os sistemas de hipertexto e as primeiras “páginas” Web, vi que ali estava uma forma de comunicação completamente diferente de tudo que eu já tinha visto antes e resolvi experimentar. Fiquei fascinado com as coisas que descobri no começo de 1994 e nunca mais parei de pesquisar o que ela tinha a oferecer. Os trabalhos acadêmicos, livros, experiências em sala de aula e meu blog são efeito colateral dessa paixão.

CCW - Fora da internet, como é o Luli?
Luli - Igual a todo mundo. Com a possível exceção que meu jardim e a piscina da USP me empolgam mais que meus gadgets.

CCW - Você tem uma grande experiência no exterior, como jurado de alguns festivais, etc... Conte para nós um pouco destas experiências.
Luli - Taí uma questão interessante. Muita gente acha que existe algum glamour no fato de ser jurado, mas na realidade é trabalho. Pesado e muitas vezes, maçante. Na minha opinião, não é muito diferente da correção de provas em final de semestre. Hoje em dia muitos concursos são julgados remotamente, online. Para mim, isso é uma coisa boa, já que minimiza constrangimentos, lobbies e influências muito comuns em concursos tradicionais.
Eu sempre acreditei que a melhor forma de viajar é fazer turismo. Viajar a trabalho muitas vezes obriga você a ficar onde não era sua opção preferencial, jantar com quem não seria sua companhia habitual e falar de assuntos que você acharia chatos em condições normais. É sempre interessante conhecer novas pessoas, idéias e lugares. Mas como, comida ou mesmo sexo, é uma coisa excelente, desde que não seja compulsório ou obrigatório.

CCW - Como é trabalhar com clientes do Oriente Médio? Quais os costumes, como é a internet por lá?
Luli - Uma vez, ao ser perguntado como era a vida em tempos de guerra, um Libanês amigo meu deu uma resposta que considero perfeita: “igual a tudo, só um pouco pior – você vai a reuniões inúteis, agüenta chefes e clientes estúpidos e faz um monte de coisas que considera sem sentido. No caminho do trabalho tem um pouco mais de trânsito, um eventual posto militar, essas coisas...” A Internet e as novas práticas de trabalho meio que padronizaram sistemas e processos em todo o mundo, a ponto que a diferença entre duas empresas pode ser maior (e normalmente chega a ser maior) que entre dois países.
Mas em linhas gerais, a Internet no Brasil é uma das mais desenvolvidas do mundo, por isso tantos brasileiros são “exportados”. Os EUA precisam de mais gente que podem formar, o Japão e a Coréia são muito fechados e herméticos, a Europa é irregular e o resto da América Latina, Canadá, África, Ásia e Oriente Médio estão bem atrás de nós. Coisas simples, como CMS e RSS, por exemplo, são “novidades” em muito lugar. Web 2.0, a última moda”.

CCW - você trabalha para diversos países, você nota muita diferença em cada país? Costumes dos clientes, etc...
Luli - Sim, mas não enquanto estou trabalhando. O escritório com ar-condicionado, móveis de madeira clara, vidros e computadores moderninhos é uma praga de design, meio que uniforme em qualquer corporação. O mesmo pode se dizer de alguns móveis decadentes, computadores meio velhos, fios e papéis por todo lado. Terminado o trabalho, as cidades (ainda) guardam muita riqueza cultural própria. Resta saber até quando.

CCW - Em toda a sua carreira, teve alguma época que marcou mais para você? Algum trabalho, alguma viagem?
Luli - Sem dúvida a época insana da bolha de pontocom, com sua gastança irracional, que nem rockstar nem jogador de futebol poderiam imaginar. O estouro da bolha também foi uma época impressionante. Muita gente perplexa, olhando para o mercado de ações como se fosse uma divindade sagrada que tenha se mostrado humana no pior sentido foi uma experiência única. O mesmo se pode dizer da perplexidade geral depois do 11 de Setembro.
Todas as épocas e lugares são especiais, desde que se compreenda o tempo e o lugar em que se está. Isso parece fácil, mas é uma das habilidades mais difíceis e bem-vindas para o profissional  atual.

CCW - Qual a principal diferença que você nota entre o profissional brasileiro e o estrangeiro?
Luli - Não se pode generalizar, mas acredito que, principalmente quando está no exterior, o Brasileiro é mais esforçado. Ele é, sem dúvida, mais criativo e busca a auto-renovação o tempo todo. Pelo menos aqueles com quem tive a oportunidade de trabalhar na área de comunicação digital. Já na propaganda convencional, o cenário é exatamente o contrário: muito publicitário cujo ego é inversamente proporcional à capacidade técnica.

CCW - Web 2.0, CGM, você arriscaria o que vem pela frente? Ou acha que vai continuar por muito tempo este conceito de Web 2.0 e conteúdo gerado pelo usuário?
Luli - Já disse em meu blog que não acredito em Web 2.0. Não pelo conceito, mas pelo nome. Esta que chamamos de 2.0 é, na verdade, a Web com cara de Web, como ela deveria ser. Blogs não são diários nem jornais, são uma coisa diferente. Wikis não são enciclopédias, nem redes sociais, bares. Elas são coisas diferentes, representam idéias diferentes que demandam palavras diferentes para descrevê-las. Tudo o que se fez de 1993 a 2003 me parece mais uma tentativa de descoberta, uma experimentação sem muito controle, ou, como se diz em TI, uma versão beta do que poderia ser a Web de verdade. Agora que nós descobrimos parte do que se pode fazer com ela, é hora de explorar o que dá para se fazer, não se comportar feito criança mimada ou sujeito superficial ou consumista, largando a jóia que acabamos de descobrir para pegar o que se apresenta no segundo lugar da fila. Isso, além de fútil, é contraproducente. Até porque a convergência das mídias é cada vez mais real, e quanto mais se conhece a base de algum conceito, melhor se pode conhecê-lo por inteiro e, nesse processo, seus desdobramentos e aplicações.

CCW - Muitas empresas estão criando serviços de "inovação" mas na verdade notamos que as idéias são muito parecidas com o que já existe. A famosa frase "nada se cria, tudo se copia" se encaixaria na questão de inovação também?
Luli - Inovação não é nada fácil e muitas vezes é desagradável. Ela demanda um exame completo das práticas realizadas atualmente e, normalmente, uma autocrítica considerável. Sem contar que dá trabalho e toma tempo. Por isso é muito mais fácil reproduzir uma fórmula, ser inovador de fachada, do que correr riscos reais e ter que assumir a responsabilidade por eles – ou mesmo que estudar bastante para evitar cometê-los. O resultado dessa preguiça intelectual é o que você vê no mercado, a ponto de elaborar a sua pergunta.

CCW - Tem alguma coisa que você nota de errado no mercado nacional? Alguma coisa que as agências ou clientes poderiam melhorar?
Luli - Existe muita coisa de errado, no cliente, mercado e agência do mundo todo. Mas não cabe a mim identificar ou mesmo propor correções. O que posso dizer é que as pessoas deveriam tentar conhecer um pouco mais o processo todo, e não se preocupar, de forma pragmática, com seus umbigos.

CCW -Daria um palpite da evolução da internet ou outras mídias nos próximos 5 anos?
Luli - Certamente uma maior evolução e penetração das tecnologias móveis e de vídeo, o desenvolvimento de equipamentos “espertos”, de carros a geladeiras, que acessem a Internet, maior penetração em áreas fundamentais como Saúde e Educação, maior inclusão...Além disso, provavelmente algo que não fazemos nem idéia da existência ou serventia hoje (e provavelmente, se apresentados a ele o acharíamos ridículo ) será a grande mania e fonte de dinheiro.

CCW - Como você acha que é o ensino na área no Brasil?
Luli - Fraco, como o é o ensino em todas as outras áreas.

CCW - Tem muito profissional bom que não é formado, o que você acha disso?
Luli - Depende muito de como ele encara essa situação. Se estiver consciente que precisa se reciclar e aprender sempre, ótimo. Mesmo assim é importante ter consciência que a principal formação da Universidade não é a técnica, mas a forma de se pensar e questionar o mundo. E isso precisa ser suprido o quanto antes, sob pena do indivíduo se tornar um técnico sem capacidade de traçar ou mesmo reconhecer cenários. E isso é uma das principais competências hoje em dia.

CCW - Você tem alguns livros escritos. Conte um pouco sobre eles e se vem algum projeto novo por aí.
Luli - Escrevi dois livros sobre web design, em uma época que isso era uma total novidade. Ambos estão esgotados e o segundo era de 1999/2000. Também escrevi um livro sobre inovação em que questiono o comportamento corporativo e seus livros de auto-ajuda, chamado “A arte da guerra para quem mexeu no queijo do pai rico”. Atualmente, assim que tiver tempo, devo terminar um novo livro de design.

// Leitura recomendada

Elementos do Estilo Tipográfico


Sinopse:
Escrita, projetada e composta pelo tipógrafo, ensaísta e poeta norte-americano Robert Bringhurst, esta obra reúne e discute em profundidade os conhecimentos que a história da tipografia ocidental transformou em tradição ao longo dos últimos 600 anos, respaldado por uma linguagem deliciosamente acessível, que a tornou uma unanimidade entre os designers gráficos do mundo inteiro. O título é inspirado em conceitos do filósofo Walter Benjamin.

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