Em 1986, com o lançamento da coletânea de contos de ficção científica
Mirrorshades (até hoje inédita no Brasil), o escritor e editor
Bruce Sterling apresentava ao mundo onze novos autores do gênero e, além disso, um prefácio que era uma verdadeira carta de intenções à comunidade de ficção científica. Nesse texto, Sterling prestava uma homenagem aos autores da
New Wave britânica dos anos 1960, escritores revolucionários como
Michael Moorcock e
J.G.Ballard, e anunciava que o marasmo no qual a ficção científica havia mergulhado nos anos 1970 e meados dos 1980 acabava ali mesmo.
Com uma FC que tratava sem pudores das angústias contemporâneas (com direito a sexo, drogas, rock´n´roll e muita atitude punk) e sem deixar de lado o uso maciço da tecnologia, os contos de Mirrorshades foram um divisor de águas na literatura do gênero. O
prefácio de Sterling se tornou o manifesto oficial do agora oficialmente batizado
Movimento Cyberpunk – os punks cibernéticos.
Mas o termo cyberpunk não foi inventado por nenhum dos cinco integrantes oficiais do Movimento (além de Sterling,
William Gibson,
Rudy Rucker,
Lewis Shiner e
John Shirley) nem pelos demais autores da coletânea. Ele foi criado seis anos antes, quando o escritor de ficção científica
Bruce Bethke sofreu um ataque de hackers. Irritado e preocupado, Bethke escreveu o conto
Cyberpunk! Essa história envolvendo hackers adolescentes, foi escrita em 1980. Com esse título, Bethke tinha a intenção de inventar um neologismo que exprimisse a justaposição de atitudes punk e alta tecnologia.
Seu pensamento não era muito diferente do expresso por Bruce Sterling ao escrever seu manifesto. A diferença era que Bethke achava que isso ainda estava por acontecer, e os escritores do Movimento sabiam que, embora eles próprios tivessem nascido e vivido suas infâncias e adolescências antes do advento do computador pessoal (Gibson, por exemplo, nasceu em 1949), já pertenciam a uma geração envolvida com alta tecnologia, e tinham uma razoável fluência técnica.
Some-se ao conto de Bethke um empurrãozinho da parte de
Gardner Dozois, na época editor da revista de contos de ficção científica americana Isaac Asimov Magazine, que ajudou a popularizar o termo – e a palavra cyberpunk entrou no imaginário da humanidade para nunca mais sair.
Mas o maior representante cyberpunk não é Bethke nem Sterling. Ele se chama William Gibson, e sua estréia oficial na literatura aconteceu dois anos antes de Mirrorshades, com a publicação de
Neuromancer, em 1984. O livro se tornou um clássico em pouco tempo, e não apenas pela criação de outra palavra fundamental para a tecnologia e a cultura, o termo ciberespaço: as 271 páginas de Neuromancer nos apresentam cenários futuristas velhos e sujos, caindo aos pedaços, onde computadores modernos se misturam a tradições orientais e hackers são os mocinhos, lutando contra megacorporações transnacionais corruptas através de ações de terrorismo midiático.
Todo esse panorama, que hoje em dia sabemos ser real só de vivê-lo em nossa experiência cotidiana, foi preconizado por Gibson em seus livros. A extrapolação científica não foi de todo bem-sucedida: pelo menos até o momento, não temos um
ciberespaço tão elaborado e elegante quanto o de Neuromancer, nem implantes tão incríveis quanto os de seus personagens. (O próprio William Gibson costuma dizer em entrevistas que, se fosse profeta, teria inventado o celular, pois esse aparelho inexiste no futuro de Neuromancer.)
Em compensação, o que Gibson errou na ciência acertou de sobra no comportamento e na moda. Mais do que acertar, Gibson ajudou a criar o comportamento da cultura vigente hoje. A
cibercultura, com sua
ética hacker, sua
música eletrônica, sua
sampleagem cultural, suas tribos urbanas; um planeta interconectado, globalizado, interativo, voyeurista,
pró-ativo; um mundo onde não engolimos impotentes o que os meios de comunicação vomitam, mas onde nos manifestamos publicamente através da Web e também através de eventos como
flash mobs, onde começamos a ver projetos de "arquitetura líquida" (termo criado pelo arquiteto brasileiro
Marcos Novak) e, com celulares,
smartphones, iPods e outros dispositivos móveis, nos tornamos a passos largos endereços de
IP móveis em uma cultura
wireless, nas palavras de
William Mitchell.
Pensando bem, talvez o futuro de histórias como Neuromancer nem seja tão improvável de acontecer, nem esteja tão distante de nós no tempo. Hoje, mais do que nunca, as novas tecnologias estão permitindo que o que antes era ficção científica se torne realidade, como dispositivos móveis, comunicação instantânea em um mundo interconectado através de agentes inteligentes, e os primeiros passos que já estamos começando a dar na direção de conceitos como arquitetura líquida e ciborguização do ser humano. Mas a formação de uma cultura que leva o
fetiche pelo objeto técnico para além dos círculos restritos dos
nerds e
geeks e o amplia até englobar praticamente toda a sociedade se deve em grande parte aos autores do Movimento Cyberpunk, e, dentre estes, mais do que nenhum outro, a William Gibson.
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Fábio Fernandes é Doutor em Comunicação e Semiótica pela
PUC-SP e professor pela mesma instituição. É autor dos livros
Interface com o Vampiro (Writers, 2000) e
A Construção do Imaginário Cyber (Anhembi Morumbi, 2006). Traduziu, entre outros, Laranja Mecânica, Neuromancer e A Era das Máquinas Espirituais. É colunista dos sites Le Monde Diplomatique Brasil, Webinsider e escreve para os sites americanos The Fix (
http://www.thefix-online.com/