Embora a força da sociedade civil esteja no engajamento pessoal dos cidadãos, a sua porção mais visível é organizada e institucional, através das associações e
ONGs. O mesmo ocorre com o voluntariado: a maioria dos especialistas, mídia e governos referem-se sempre a sua dimensão institucional, subestimando o poder de milhões de cidadãos que utilizam criatividade e talentos pessoais para trazerem soluções para suas comunidades, independentemente de apoio formal ou organizado.
Esta dimensão institucional refere-se a organizações da
sociedade civil que geralmente oferecem modelos burocráticos de participação voluntária aos cidadãos: seguindo os mesmos moldes do emprego formal, como processos de recrutamento e seleção, atividades prontas,
gestão verticalizada, etc. Estas são formas legítimas para organizar o trabalho das pessoas, mas não são as únicas e, certamente, não representam o modelo de engajamento que alavancará o poder de colaboração latente na humanidade.
Mas há uma outra perspectiva, que chamaremos aqui de "voluntário em rede" ou "voluntariado 2.0", que vê o voluntário como agente e promotor de suas próprias ações, muitas vezes realizadas em um grupo que compartilha valores semelhantes. Ciente de si, de seus talentos e do contexto em que está inserido, este voluntário espontaneamente age sobre sua realidade e estabelece relacionamentos com seus pares (muitas vezes, vizinhos, colegas de trabalho, os pais dos colegas da escola do seu filho e assim por diante). No voluntariado 2.0 é assim: quem quer vai e faz.
As novas tecnologias transformaram as formas de colaboração. Pessoas podem obter o que precisam umas das outras, em vez de depender de instituições tradicionais. O sucesso da
Wikipédia é uma das melhores expressões dessa rede colaborativa, que conta com a contribuição de milhares de voluntários. É na cooperação, interação e no poder coletivo que está focada a
Web 2.0. E não é a toa que o voluntariado lhe cai tão bem.
Mas, como usar estes novos modelos de colaboração para apoiar projetos voluntários? Desta pergunta surgiu o
V2V (Volunteer-to-Volunteer), uma rede social criada em 2004, no Rio de Janeiro, com forte colaboração de empresas que pretendiam incentivar a prática do voluntariado entre seus funcionários, familiares e clientes. Com o propósito de promover a causa no país, o V2V permite que pessoas possam oferecer e buscar oportunidades de ação voluntária, sem a necessidade de se vincularem a uma instituição formal.
Seguindo a mesma inovação que o site de leilões e-bay fez no mercado de varejo, criando um ambiente confiável para que as pessoas pudessem não apenas comprar, mas também vender os seus produtos, o V2V incentiva voluntários a se tornarem produtores, e não somente consumidores de oportunidades de voluntariado – pessoas comuns como agentes de mudança positiva na sociedade.
O poder de promoção do voluntariado em sua comunidade local é dado diretamente ao indivíduo. Reduzindo intermediação e formalidade nas interações entre voluntários é possível ampliar significativamente os canais de participação social. Ao dar visibilidade às pessoas e seus interesses, a rede proporciona encontros, trocas de experiências e inspiração para quem quer agir.
Em uma parceria internacional com a
Starbucks Coffee, o V2V tornou-se um projeto global. É uma rede social em expansão, sendo usada em empresas, universidades e cidades por mais de 100 mil voluntários que desenvolvem mais de 15 mil ações sociais em 84 países. Podemos encontrar grupos em diversas partes do mundo unindo-se para limpar parques, para fazer caminhadas em nome de alguma causa, organizando visitas a asilos, discutindo sustentabilidade, reciclagem, buscando formas de melhor aproveitar os recursos da empresa e por aí vai.
A existência desta rede permite, por exemplo, que uma funcionária do Starbucks nos Estados Unidos se identifique com outra do
Kuwait e até mesmo que alguém descubra um projeto encantador liderado pelo vizinho, sobre o qual nunca tiveram a chance de conversar. E são desses encontros que surgem novas iniciativas e novos líderes.
O grande desafio para quem promove um projeto social é criar condições para incluir as pessoas que têm desejo de participar. A única maneira de se livrar dos modelos centralizadores de poder, do assistencialismo, da dependência e de outros riscos que afetam projetos de voluntariado é envolver todos os interessados nas iniciativas que promovemos. É formar redes.
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Bruno Ayres, administrador com mestrado em Ciência da Informação pelo
IBICT/UFRJ. É co-fundador e diretor do
Portal do Voluntário/Comunitas e do
V2V Networks. Juntamente com a equipe do Portal do Voluntário a da
Fundação Chandra (Espanha), criou a tecnologia V2V (Volunteer-to-Volunteer), uma ferramenta de redes sociais para gestão de programas de voluntariado que é usada por organizações, governo e empresas no Brasil e nos EUA.
Marianna Taborda, gerente de comunidades do Portal do Voluntário/Comunitas e do V2V Networks. Ambos projetos desenvolvem redes sociais para fortalecer o voluntariado corporativo de empresas como Starbucks Coffee, Banco Itaú, HSBC, Embraer, Vale do Rio Doce, IBM e Bradesco. Mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ e bacharel em jornalismo pela
PUC-Rio. Especializada na gestão e articulação de redes.