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Mobile
Por mais que o número de celulares no Brasil chegue a ser mais de sete vezes maior do que o número de computadores, o acesso à Internet móvel ainda é caro, lento e restrito. Algumas redes de telefonia celular de terceira geração (chamadas de 3G) melhoram um pouco a situação, mas ainda estão muito aquém do desejável tanto em termos de preço e velocidade. Mas se levarmos em conta que uma linha de telefone já chegou a custar mais de quatro mil dólares e um PC, cerca de dez mil, tudo indica que o barateamento dessas tecnologias será progressivo e rápido, a ponto de preocupar os administradores de rede quanto a um possível congestionamento dos servidores daqui a pouco tempo.

A evolução é grande, e é um efeito de gerações. Enquanto as tecnologias são novas, os termos são muitos e as disputas razoavelmente técnicas. Sistemas operacionais como Symbian, iPhoneOS, WindowsMobile, Blackberry, Palm e Android brigam entre si para ver quem será o padrão a ser seguido pelas diversas maquininhas, com nomes não menos estranhos. Tecnologias como Bluetooth, WiFi, WiMax, Mesh, EDGE, EVDO, UMTS ou 3G fazem o mesmo pra determinar os parâmetros de transmissão de dados. Se você não se interessa por esses termos, não se preocupe: como TVs de plasma, fitas Betamax, cartuchos de som ou disquetes, a maioria desses parâmetros desaparecerá em breve. O que restará serão modelos de negócios e usos da tecnologia que, independente de seu fabricante, serão inteligentes, compatíveis e ágeis. Como você pretende usá-los é o que fará a diferença.

Quem quiser entender a revolução das tecnologias móveis precisa parar de pensar em Internet no telefone e passar a considerar as possibilidades que surgem em um mundo que praticamente qualquer aparelho, de qualquer tamanho, pode coletar as informações do seu contexto (ambiente, dados pessoais, hora e histórico, só para citar algumas fontes), interligá-las, calculá-las e compará-las com bancos de dados imensos, distribuídos pelo mundo, instantaneamente e praticamente sem custo.

Comunicação, não se pode esquecer, é uma via de mão dupla: os mesmos aparelhos que acessam a Internet de qualquer lugar também podem (e devem) ser usados para transmitir dados a respeito do ambiente em que estão e de seu movimento. Qualquer aparelho de computação móvel - telefone, notebook, videogame, rádio, GPS, automóvel ou chip eletrônico implantado sob a pele - representa mais um ponto agregador de conteúdo. Graças a essas tecnologias em breve não será mais preciso "alimentar" o sistema com vários dados, já que muitos deles poderão ser coletados automaticamente. Considere o trânsito, por exemplo. Hoje são necessários observadores, antenas, câmaras e sensores espalhados pela cidade para que se possa fazer uma medição razoável. Apesar dessa estrutura ser bastante cara e frágil, ela está muito longe de ser perfeita. A partir do instante que cada automóvel e telefone puder coletar dados e transmiti-los anonimamente para uma central, o mapa do trânsito será muito preciso, atualizado instantaneamente e - o melhor - quase gratuito.

Outro ponto que deve ser levado em conta é que ninguém vive só, e que as mídias sociais (Blogs, Microblogs, Wikis, redes sociais, comunicadores instantâneos, fóruns, metaversos e outros) se tornaram rapidamente as novas praças públicas. Graças a ela é possivel se relacionar com muito mais pessoas que seria possível em qualquer ambiente físico. Quem tem um blog visitado e comentado, segue e é seguido por várias pessoas em um Twitter, tem o MSN ou o Skype ativo e participa de redes sociais chega a entrar em contato com centenas (alguns até milhares) de pessoas por dia, tudo isso nas poucas horas em que fica sentado em frente a um computador. Tecnologias móveis permitirão em breve que os lugares físicos e digitais se misturem a ponto de fazerem pouca diferença.

Isso tudo ainda são idéias, mas uma coisa é certa: a Internet do futuro será móvel. Até porque, além de todos os argumentos citados neste capítulo, mobilidade faz sentido. Ninguém nasceu sentado em uma cadeira, curvado sobre um monitor e teclado.

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Luli Radfahrer (luli.com.br) é Ph.D. em comunicação digital pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), de onde também é professor há mais de quinze anos. Trabalha com internet desde 1994, quando fundou a Hipermídia, uma das primeiras agências de comunicação digital do país, hoje parte do grupo Ogilvy. Saiu em 96 para fundar seu estúdio. Em 99 foi para a StarMedia de Nova York assumir a Vice-Presidência de Conteúdo. De volta, criou a dpz.com, divisão digital da agência de propaganda DPZ. Em 2003, como consultor, teve como clientes a AOL Brasil e o McDonald’s. Hoje desenvolve projetos de inovação, comunicação digital e design de interação para empresas no Brasil, Canadá, Estados Unidos e Oriente Médio.

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Entrevista Luli Radfahrer
CCW - Conte um pouco sobre o Luli. Como você chegou a PhD em comunicação? Sempre quis trabalhar com isto?
Luli - Comecei a pesquisar Internet desde antes que ela se tornasse um sucesso comercial. Na USP, em especial na Escola de Comunicações e Artes, tínhamos acesso àquele “negócio” de Internet que ninguém sabia direito o que era e o que podia ser feito com ele. Ao conhecer os sistemas de hipertexto e as primeiras “páginas” Web, vi que ali estava uma forma de comunicação completamente diferente de tudo que eu já tinha visto antes e resolvi experimentar. Fiquei fascinado com as coisas que descobri no começo de 1994 e nunca mais parei de pesquisar o que ela tinha a oferecer. Os trabalhos acadêmicos, livros, experiências em sala de aula e meu blog são efeito colateral dessa paixão.

CCW - Fora da internet, como é o Luli?
Luli - Igual a todo mundo. Com a possível exceção que meu jardim e a piscina da USP me empolgam mais que meus gadgets.

CCW - Você tem uma grande experiência no exterior, como jurado de alguns festivais, etc... Conte para nós um pouco destas experiências.
Luli - Taí uma questão interessante. Muita gente acha que existe algum glamour no fato de ser jurado, mas na realidade é trabalho. Pesado e muitas vezes, maçante. Na minha opinião, não é muito diferente da correção de provas em final de semestre. Hoje em dia muitos concursos são julgados remotamente, online. Para mim, isso é uma coisa boa, já que minimiza constrangimentos, lobbies e influências muito comuns em concursos tradicionais.
Eu sempre acreditei que a melhor forma de viajar é fazer turismo. Viajar a trabalho muitas vezes obriga você a ficar onde não era sua opção preferencial, jantar com quem não seria sua companhia habitual e falar de assuntos que você acharia chatos em condições normais. É sempre interessante conhecer novas pessoas, idéias e lugares. Mas como, comida ou mesmo sexo, é uma coisa excelente, desde que não seja compulsório ou obrigatório.

CCW - Como é trabalhar com clientes do Oriente Médio? Quais os costumes, como é a internet por lá?
Luli - Uma vez, ao ser perguntado como era a vida em tempos de guerra, um Libanês amigo meu deu uma resposta que considero perfeita: “igual a tudo, só um pouco pior – você vai a reuniões inúteis, agüenta chefes e clientes estúpidos e faz um monte de coisas que considera sem sentido. No caminho do trabalho tem um pouco mais de trânsito, um eventual posto militar, essas coisas...” A Internet e as novas práticas de trabalho meio que padronizaram sistemas e processos em todo o mundo, a ponto que a diferença entre duas empresas pode ser maior (e normalmente chega a ser maior) que entre dois países.
Mas em linhas gerais, a Internet no Brasil é uma das mais desenvolvidas do mundo, por isso tantos brasileiros são “exportados”. Os EUA precisam de mais gente que podem formar, o Japão e a Coréia são muito fechados e herméticos, a Europa é irregular e o resto da América Latina, Canadá, África, Ásia e Oriente Médio estão bem atrás de nós. Coisas simples, como CMS e RSS, por exemplo, são “novidades” em muito lugar. Web 2.0, a última moda”.

CCW - você trabalha para diversos países, você nota muita diferença em cada país? Costumes dos clientes, etc...
Luli - Sim, mas não enquanto estou trabalhando. O escritório com ar-condicionado, móveis de madeira clara, vidros e computadores moderninhos é uma praga de design, meio que uniforme em qualquer corporação. O mesmo pode se dizer de alguns móveis decadentes, computadores meio velhos, fios e papéis por todo lado. Terminado o trabalho, as cidades (ainda) guardam muita riqueza cultural própria. Resta saber até quando.

CCW - Em toda a sua carreira, teve alguma época que marcou mais para você? Algum trabalho, alguma viagem?
Luli - Sem dúvida a época insana da bolha de pontocom, com sua gastança irracional, que nem rockstar nem jogador de futebol poderiam imaginar. O estouro da bolha também foi uma época impressionante. Muita gente perplexa, olhando para o mercado de ações como se fosse uma divindade sagrada que tenha se mostrado humana no pior sentido foi uma experiência única. O mesmo se pode dizer da perplexidade geral depois do 11 de Setembro.
Todas as épocas e lugares são especiais, desde que se compreenda o tempo e o lugar em que se está. Isso parece fácil, mas é uma das habilidades mais difíceis e bem-vindas para o profissional  atual.

CCW - Qual a principal diferença que você nota entre o profissional brasileiro e o estrangeiro?
Luli - Não se pode generalizar, mas acredito que, principalmente quando está no exterior, o Brasileiro é mais esforçado. Ele é, sem dúvida, mais criativo e busca a auto-renovação o tempo todo. Pelo menos aqueles com quem tive a oportunidade de trabalhar na área de comunicação digital. Já na propaganda convencional, o cenário é exatamente o contrário: muito publicitário cujo ego é inversamente proporcional à capacidade técnica.

CCW - Web 2.0, CGM, você arriscaria o que vem pela frente? Ou acha que vai continuar por muito tempo este conceito de Web 2.0 e conteúdo gerado pelo usuário?
Luli - Já disse em meu blog que não acredito em Web 2.0. Não pelo conceito, mas pelo nome. Esta que chamamos de 2.0 é, na verdade, a Web com cara de Web, como ela deveria ser. Blogs não são diários nem jornais, são uma coisa diferente. Wikis não são enciclopédias, nem redes sociais, bares. Elas são coisas diferentes, representam idéias diferentes que demandam palavras diferentes para descrevê-las. Tudo o que se fez de 1993 a 2003 me parece mais uma tentativa de descoberta, uma experimentação sem muito controle, ou, como se diz em TI, uma versão beta do que poderia ser a Web de verdade. Agora que nós descobrimos parte do que se pode fazer com ela, é hora de explorar o que dá para se fazer, não se comportar feito criança mimada ou sujeito superficial ou consumista, largando a jóia que acabamos de descobrir para pegar o que se apresenta no segundo lugar da fila. Isso, além de fútil, é contraproducente. Até porque a convergência das mídias é cada vez mais real, e quanto mais se conhece a base de algum conceito, melhor se pode conhecê-lo por inteiro e, nesse processo, seus desdobramentos e aplicações.

CCW - Muitas empresas estão criando serviços de "inovação" mas na verdade notamos que as idéias são muito parecidas com o que já existe. A famosa frase "nada se cria, tudo se copia" se encaixaria na questão de inovação também?
Luli - Inovação não é nada fácil e muitas vezes é desagradável. Ela demanda um exame completo das práticas realizadas atualmente e, normalmente, uma autocrítica considerável. Sem contar que dá trabalho e toma tempo. Por isso é muito mais fácil reproduzir uma fórmula, ser inovador de fachada, do que correr riscos reais e ter que assumir a responsabilidade por eles – ou mesmo que estudar bastante para evitar cometê-los. O resultado dessa preguiça intelectual é o que você vê no mercado, a ponto de elaborar a sua pergunta.

CCW - Tem alguma coisa que você nota de errado no mercado nacional? Alguma coisa que as agências ou clientes poderiam melhorar?
Luli - Existe muita coisa de errado, no cliente, mercado e agência do mundo todo. Mas não cabe a mim identificar ou mesmo propor correções. O que posso dizer é que as pessoas deveriam tentar conhecer um pouco mais o processo todo, e não se preocupar, de forma pragmática, com seus umbigos.

CCW -Daria um palpite da evolução da internet ou outras mídias nos próximos 5 anos?
Luli - Certamente uma maior evolução e penetração das tecnologias móveis e de vídeo, o desenvolvimento de equipamentos “espertos”, de carros a geladeiras, que acessem a Internet, maior penetração em áreas fundamentais como Saúde e Educação, maior inclusão...Além disso, provavelmente algo que não fazemos nem idéia da existência ou serventia hoje (e provavelmente, se apresentados a ele o acharíamos ridículo ) será a grande mania e fonte de dinheiro.

CCW - Como você acha que é o ensino na área no Brasil?
Luli - Fraco, como o é o ensino em todas as outras áreas.

CCW - Tem muito profissional bom que não é formado, o que você acha disso?
Luli - Depende muito de como ele encara essa situação. Se estiver consciente que precisa se reciclar e aprender sempre, ótimo. Mesmo assim é importante ter consciência que a principal formação da Universidade não é a técnica, mas a forma de se pensar e questionar o mundo. E isso precisa ser suprido o quanto antes, sob pena do indivíduo se tornar um técnico sem capacidade de traçar ou mesmo reconhecer cenários. E isso é uma das principais competências hoje em dia.

CCW - Você tem alguns livros escritos. Conte um pouco sobre eles e se vem algum projeto novo por aí.
Luli - Escrevi dois livros sobre web design, em uma época que isso era uma total novidade. Ambos estão esgotados e o segundo era de 1999/2000. Também escrevi um livro sobre inovação em que questiono o comportamento corporativo e seus livros de auto-ajuda, chamado “A arte da guerra para quem mexeu no queijo do pai rico”. Atualmente, assim que tiver tempo, devo terminar um novo livro de design.

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