Rodrigo Guedes

Diretor de Arte
Foz - PR - Brasil
http://www.trafor.com.br/
Publicitário e diretor de arte de Floripa, morando em Foz, vivendo on e off line.
Como criar um criativo
Criatividade é um processo complexo. É o ato de criar. Implica em ação. Criatividade somente dentro da cabeça não serve pra muita coisa. Talento é válido, mas materializar algo é que qualifica a criatividade.

Por isso inovação não é a criatividade em si. Mas vem a partir dela. A criatividade mesmo é sempre a capacidade de resolver um problema, da melhor forma. Nem que isso signifique inventar um problema para resolvê-lo.

Daí escrevi esse post com as características de um bom criativo (dentro da minha cabeça e com base em tudo que li e fiz dos altos de meus 33 anos). Vale pra vida, vale pra web:

1. Tenha experiências. Abrir mão da "inspiração" e começar a "transpiração" faz boas idéias aparecerem. Elas vem de tudo que você já viveu, taí, dentro do seu HD interno. Então transpire, pesquise, informe-se, leia, escreva. Deixe tudo lá no cérebro cozinhando. Depois relaxe, mude o foco. As idéias irão surgir naturalmente.

2. Muita prática: a teoria é importantíssima, alimenta e mantém o músculo cerebral ativo. Mas a experiência é o saber de fato. Por em prática. Equilibrar as duas coisas, sempre colocar a teoria em prática é o que faz um criativo excepcional. E por outro lado...

3. Leia! Muito. Sobre tudo. Na internet, revistas, livros. Quanto mais conteúdo o cérebro tiver, mais capacidade associativa você terá. Pois como já dizia Goethe "Quem de três milênios não é capaz de se dar conta, vive na ignorância e nas sombras, a mercê dos dias e do tempo".

4. Especialismo.
Te disseram pra saber um pouco de tudo. Eu aprendi: saiba um pouco de tudo, mas se especialize em algo. Se torne extraordinário em algo. Ou pelo menos um dos melhores. Se interessar por tudo é essencial, mas ter um foco também é. É isso que irá diferenciar a sua criação dos milhares que apenas leem e comentam a sua criação.

5. Valorize o que você já sabe.
Não desvalorize seus choros de bebê, suas perguntas de criança, suas roubadas na adolescência, seus livros lidos, suas idéias, seus 12 anos no colégio e 4 na faculdade. Tudo o que você aprendeu e viveu acrescentou alguns dígitos ao valor de seu trabalho. Valorizar isso é ter respeito consigo mesmo e com o fruto da sua criação.

6. Procure sarna para se coçar.
As pessoas mais criativas são aqueles que não se acomodam. Estão sempre resolvendo problemas. E quando não há problemas, correm atrás para criar um. Se tudo está muito certinho, tranquilo, como um barquinho a velejar no macio azul do mar, desconfie. E vai criar.

7. Livre-se do apriorismo.
Criativos não são preconceituosos (ou não deveriam ser). Eles se colocam no lugar de outros, buscam a empatia, pensam de todos os ângulos, sem bloqueios, abrindo mão do que não presta e se mantendo firme quando a idéia é boa. Quanto menos apriorista você for, maior capacidade terá de ver o que ninguém viu e pensar o que ninguém pensou.

8. Crie um diálogo. Em web e na vida, a verdadeira comunicação é estabelecer diálogos, deixando o outro discordar, refutar ou concordar e principalmente, dando a deixa para divulgar. Quando criar algo, pense em criar respostas nos outros, tornar a pessoa que lê ativa no processo. Que ela mesma seja um protagonista e leve adiante esse conceito.

9. Contexto e adequação.
Criatividade é bom. Mas não adianta empurrar uma idéia genial sobre banana para quem quer vender maçã. Muita gente é criativo e sem noção, está embriagado dentro do seu próprio eu superior. A noção é preciosa.

10. Crie métodos.
Isso é o que eleva a comunicação ao status de ciência. Use o que já existe (de novas formas) ou crie o seu. Métodos são pouco valorizados, mas são poderosos e decisivos. E é isso que a diferencia da arte. Na arte a criatividade não tem função definida. Na comunicação a arte está em função de resolver um problema.

11. Entenda as pessoas.
Apaixone-se pelo ser humano. Tudo o que você faz é para alguém usufruir, melhorar a vida de alguma forma, e consequentemente você mesmo. Satisfazer apenas ao seu ego é ser obtuso, não criativo. O criativo que pensa além de si, tem mais chances de criar algo realmente útil.

12. Função. Nada vende porque é bonito. Só a estética não resolve um problema. O conteúdo do que é criado é tão importante quanto a roupagem com a qual é apresentada. Trate da função e dessa relação com quem irá usar e você estará no caminho certo.

13. Argumente. Palestre, participe de fóruns, grupos de discussão, puxe papo, aprenda a argumentar, leia os filósofos. Não adianta apenas apresentar uma idéia criativa, defendê-la e argumentar a favor dela é tão essencial quanto.

14. A verdade bem contada.
Um publicitário certa vez falou que a "publicidade é a verdade bem contada". Se o produto atender à promessa ele continuará vendendo. Senão bastará provar uma vez para abrir mão. Criatividade é apresentar soluções duradouras e pertinentes, tanto quanto coerentes.

15. Entendimento. As coisas são difíceis até entendermos. Depois fica fácil. Quando tiver qualquer dúvida, vá atrás de respostas, veja o que já fizeram antes de você. Saiba do que está falando, não apenas intua.

16. Inovação criativa. Essa eu peguei do Jobs. Descubra ou aperfeiçoe produtos. Os grandes sucessos criativos e inovadores foram descobertos antes mesmo de as pessoas saberem o que queriam. Então observe as tendências e faça um exercício de imaginar o que será necessário daqui a pouco. Ou pegue o que já existe e faça melhor, muito melhor. Crie essas oportunidades.

17. Faça associações.
Aprenda a relacionar gato com lebre, cabalo com zebra, celular com lágrimas. Criar é associar elementos em uma concepção nova.

18. Imagine. Use a sua imaginação ao seu favor. Imagine novos conceitos, novos mundos, novas ordens, novos produtos. Muito do que vemos hoje em tecnologia, os escritores de ficção científica inventaram décadas atrás.

19. Razão x emoção. Não decida com base apenas na emoção. A criatividade é um atributo da mente racional, que ordena o conteúdo do lado intuitivo e emotivo. Se as coisas ficarem apenas no plano da emoção a ação de criar ficará comprometida, com função duvidosa, sem o poder real de resolver um problema.

20. Anote tudo. Tome notas, elocubre, rabisque, escreva sobre o que pensou. Anote o sonho que teve, use seu smart phone, seu bloco, a palma da sua mão. Quanto mais conteúdo sua mente tiver disponível para acessar, melhor.

21. Banco de dados. Por último, crie um banco de dados de fácil acesso a tudo o que você anotou quando precisar. Coloque tags nessas notas e não deixe-as no fundo do seu hd. Faça bom uso delas.

3 comentários em Como criar um criativo.

Comentário de Diego
Olá, bom artigo Rodrigo, porém tenho alguns argumentos, pouparei você dos elogios as ótimas conclusões, se algo estiver fora do alvo das criticas é por que encontram-se em pontos que concordamos.

Me intriga um pouco após "tanta leitura" e absorção de informação, ainda que defenda-se instigar o cérebro criativo a absorver tudo e toda informação, pra que ela sempre esteja lá quando você precisa e como você disse, fique cozinhando. Eu não posso afirmar nada com toda certeza, mas, entretanto, posso perceber que recentemente no campo da ciência neurológica e não do design, o menos realmente é mais.

Vale um aprofundamento nas leituras que dizem respeito as memórias, bem especifico pra que a mente possa guardar e não vá para carga de informação excessiva.

Uma das ultimas edições da Superinteressante fala superficialmente a respeito disso. O que quero dizer com isso, é que discordo com a forma colocada sobre absorção de conhecimento, me parece excessivo e observando o comportamento de uma % dos criativos que saem da Universidade, me parece que a internet é o único meio de consumo de informação (e isso não é uma crítica, somente um observação). Em resumo, apontando meu ponto de vista que seria acreditar numa postura de busca por informação, de maior qualidade e em menor escala.

Sobre as questões do especialismo e generalismo, não discordo de você, porém fiquei confuso no que se diz respeito ao que realmente busquei na leitura a partir do título e o tema do texto (Como criar um criativo), o que eu encontro naquele trecho é o incentivo a um tecnicismo no que se diz respeito a criatividade da qual barreiras são bem complexas de serem colocadas com tanta certeza, como você cita ali. "-mas se especialize em algo.", felizmente é mais um ponto em que discordamos, não acho que a solução para um criativo seja o foco, e defendo isso por já ter buscado ser um profissional especialista e hoje buscar no generalismo, das artes clássicas à digital, sem foco especifico e empiricamente posso lhe afirmar que tem sido criativamente muito mais proveitoso, novamente pontuando, não acredito que realmente interfira no processo você ser tecnicamente especifico ou generalista, mas não posso deixar de concordar que ser especifico o aproxima MUITO mais da excelência técnica.

Falei que não levantaria pontos que concordássemos, mas esse ponto é fundamental, pra futuros/passados/presentes profissionais de nossa área, Valorizem a si mesmo, o tempo que dedicamos ao estudo e absorção do conhecimento tem que ter retorno financeiro válido, (afinal não é só o ego que precisa de alimentar) Sempre defendo essa bandeira em todo lugar que vou, criativo não precisa só de elogio e prêmio, precisa de salário decente, carga horária humana pro nosso século, incentivo a ter uma vida fora do trabalho, noites bem dormidas e vida social fora de agência, isso sim ajuda na criatividade, finalizando fica um link : http://netdiver.net/x_editorials/respectyourself.php

E por ultimo, mas não ausente "publicidade é a verdade bem contada". - minha proposta : "publicidade é a mentira bem vestida". (mas isso é só uma piada de um cara azedo)

Abraços Rodrigo,

and keep writing,

Comentário de Rodrigo Guedes
Fala Diego,

Cara, achei excelentes os contrapontos. Muito bem embasados e aprofundados.
E me fez pensar (mesmo) sobre o que escrevi.

Sobre a questão do "ficar cozinhando informação excessiva", eu concordo plenamente com você. O que quis dizer (e realmente não me embasei cientificamente em nada, apenas na esperiência mesmo) é que as vezes, após leitura, conversa, filme ou qualquer outra forma de aquisição de informação (excessiva ou não), a idéia criativa não vem de imediato. E percebo que mudando o foco, relaxando mesmo, dá-se "tempo" para que novas associações possam surgir daí. Mais ou menos assim: você passa lá um dia inteiro tentando aprender os acordes daquela música no violão, quebra a cabeça (e os dedos) e no final ainda não está com a maestria que queria. Larga o violão, vai fazer outra coisa, e no outro dia, quando pega pra tocar está tudo muito mais fácil e fluido. Quase como se algo em nossa cognição precisasse processar o conteúdo apreendido antes de partir pra ação.

Agora você tem razão: a mente criativa precisa de mais qualidade em menor escala. Ainda mais nesse "garimpo" de informação que é a web hoje. Não é sair lendo tudo que tem por aí. Saber selecionar é essencial.

Sobre a questão especialismo x generalismo, minha intenção era justamente valorizar o contrário: técnicos em programas de design, em temas e afins encontra-se a rodo por aí. Não é tão difícil aprender a mexer em um photoshop, indesign ou ilustrator da vida. Mas a FORMA como você usa essas ferramentas, pra mim, é que vai diferenciar um bom criativo de um excelente criativo.

Na verdade ele não precisa nem mesmo usar de forma excelente essa ferramenta se for realmente criativo. Pode contratar alguém para fazer isso pra ele. Pra mim, a idéia original é maior que a ferramenta, mas a ferramenta é essencial na concretização da idéia.

Por isso falei do especialismo: ser referência em determinada área. O pincel na minha mão e na mão do Da Vinci traz resultados bem diferentes (o Da Vinci ganha, é claro :). Na hora de contratar um criativo (mesmo), você não contrata porque ele sabe mexer no corel draw, mas porque ele é genial em criar, em uma área específica. O melhor (que puder chamar) naquela área - design gráfico, ou de produtos, ou viral, ou seja lá o que for. Ele sabe sobre tudo, generaliza, mas na prática ele se destaca em algo. É mais ou menos por aí que eu quis andar. O Foco é aonde ele quer chegar.

Agora, hoje quanto mais polivalente o cara for em criação melhor, concordo com você nisso. Mas se o cara não sabe focar - no sentido de "agora o que eu tenho que fazer é um anúncio, agora um banner, agora um viral, agora uma campanha inteira" ele dispersa pra tudo que é lado. Não é no sentido de engessar a criatividade, mas de direcioná-la para concretizar algo, naquele momento.

E sobre a publicidade, eu concordo cara, as vezes douro a pílula da publicidade e tudo mais, mas no fundo no fundo queria que essa profissão fosse mais do que é. Que criar fosse além da web, do anúncio, além da "mentira bem-vestida" ou "verdade bem-contatada". Por isso as vezes me dá vontade de ir por outros caminhos. Então vejo alguns indícios de muita mudança, novas mídias, novos tempos, e me agarro mais um pouco.

E por último, man, great site (#netdiver.net). Está dentro de tudo que eu penso a respeito da valorização e enfoque da profissão. Valeu.

Abração!

" (...) Respect yourself, your ideas and build a solid portfolio.
(...) make sure to cut it fair for yourself.
(...) And although it may be hard, if everything does not go according to plan, take your part of responsibility and move on.
(...) A career is a learning process, not a final destination."


Comentário de Cristiano Barros
Parabéns, gostei muito, bastante criativo.

abraços.

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